Meu pequeno guia para presentes com significado

Dias atrás, enquanto eu estava em casa à noite sentado no sofá assistindo qualquer coisa na TV, recebi de Dona Socorro algumas selfies + um áudio super animado através do whatsapp: ela estava me mostrando que estava usando uma camisa (que dei pra ela de presente no dia das mães no ano passado) + batom cor de rosa.

Não seria nada demais, se não fosse o fato de que ela não gosta muito de tirar foto e uma infinidade de acontecimentos por trás dessa história...

Minha mãe teve uma vida muito pobre e sofrida, começando a trabalhar em casa de família desde os 7 anos de idade e tendo direitos básicos negados desde a infância.

Além disso, se casou com um homem tóxico, machista e racista que fazia questão de inferiorizá-la por seus traços sempre que podia, e isso se soma à convivência com algumas outras pessoas que minha mãe considerava amigas, mas que volta e meia faziam com que ela se sentisse mal pelo mesmo motivo.

Cresci vendo o mundo dizer para minha mãe que ela não podia fazer isso ou usar aquilo porque era negra  (e/ou pobre) e, quando ela finalmente se livrou desse relacionamento radiativo nível Chernobil -poucos anos atrás-, estabeleci para mim mesmo, como meta de vida, ajudá-la a resgatar pelo menos parte da autoestima que havia sido destruída por tanto tempo.

A camisa que dona Socorro estava usando na foto foi meu presente de dia das mães para ela no ano passado -e que ela quase nunca usa, já que ela separa roupas especiais para ocasiões especiais, rs.

Quando escolhi aquela blusa, no site de uma marca que eu sei que cuida dos detalhes do jeito que ela gosta, eu estava buscando uma forma de entregar para ela o melhor que estava ao meu alcance, com uma mensagem de gratidão por ter a chance de comemorar o dia das mães mais uma vez com ela junto com a gente (meses antes, ela quase morreu na fila de espera por uma cirurgia na rede pública).

Ao receber a camisa em casa, ela me manda uma mensagem dizendo que aquela camisa parecia com as peças de roupa que ela via nas casas das patroas onde ela havia trabalhado.

E foi ali que eu compreendi melhor a dimensão da minha missão resgate de autoestima e respondi dizendo que aquele era um recado -que a barreira entre as coisas de patroa e as coisas dela não deveria existir mais e que, no que dependesse de mim, ela sempre teria o melhor.

Dar a qualidade de vida que desejo para minha mãe ainda parece uma realidade um pouco distante, mas eu trabalho dia após dia para isso e esse é o exato motivo pelo qual vocês percebem tanta dedicação no que eu faço: tudo gira em torno de conseguir fazer com que ela se sinta patroa todos os dias (e talvez tenha caído um cisco no meu olho enquanto eu escrevo isto).

Neste exato momento, enquanto escrevo esse post madrugada adentro, acabei de finalizar o pacote com o presente do Ângelo -o Caramelo, que vocês tem acompanhado no instagram...

Caramelo poderia ser só um boneco de pano, não fosse o fato de ele ser pensado em cada detalhe para ser um presente que o ajude a superar o medo de dormir sozinho, de forma empática e lúdica.

E é sobre isso que eu quero falar com vocês hoje: no momento do ano em que todo mundo está atrás de presentes, quero falar sobre como presentes com significado podem ser propulsores de transformações.

Voltando à Dona Socorro: nos últimos meses, passamos por uns bons perrengues em família na vida real e diante de todo o caos, minha estratégia continua, faça chuva ou faça sol, de sempre que possível,  lembrá-la que nenhum traço a faz inferior a ninguém e é aqui onde as histórias se conectam.

Pouco antes da pandemia começar, minha mãe comentou uma vez sobre um café que havia inaugurado no bairro onde ela mora; o café era bonito e bem cuidado e ela ficou com vontade de ir conhecer, mas não foi por vergonha.

Esta vergonha vem de longa data, acompanhada de um senso de inadequação, como se tudo o que é mais bonito ou bem cuidado não fosse para ela e, desde então, ficou mais forte na minha cabeça o questionamento sobre o que eu poderia fazer para minimizar isso até que, no seu aniversário, em agosto, surgiu a oportunidade perfeita e eu a convidei para um passeio surpresa a um lugar que ela ainda não conhecia.

O lugar surpresa era um café, mas não aquele que ela mencionou, rs.
Escolhi o Marilda, que eu já mostrei aqui no blog, exatamente porque foi um lugar onde eu me senti muito à vontade, onde recebemos um atendimento muito gentil e também porque eu tinha absoluta certeza de que ela gostaria dos detalhes ali no ambiente.

Passamos uma tarde inteira no quintal do café, num clima super leve, com dona Socorro aproveitando cada instante...

Quando eu compartilhei no instagram um pouco dessa história e comentei sobre o senso de inadequação da minha mãe, recebi muitas mensagens de outras pessoas que também passam por algo parecido com pais e mães com origens e histórias parecidas (cheias de privações)...

Desde então, não parou de ecoar na minha cabeça que eu precisaria compartilhar minhas idéias e experiências para ajudar outras pessoas no processo de recuperação da autoestima e da sensação de pertencimento.

E agora, meses depois, tá aqui uma listinha de pontos que eu considero importante na hora de escolher um presente que, de fato, tenha significado e potencial de transformar algo na vida de quem o receber

1. Escolha presentes que levem a um movimento: 

Mesmo sabendo que a propabilidade de uso era quase nula, eu já presenteei minha mãe com um batom vermelho e um batom pink;

Esses batons foram como "complemento" de outros presentes, tipo um brinde mesmo e eu sempre deixei claro que ela poderia se sentir totalmente a vontade para não usar se não quisesse e que aquele era apenas um lembrete de que a boca e o sorriso dela são lindos e que nada do que disseram no sentido oposto no passado era verdade.

De forma gentil e sem forçar a barra, nos dois episódios, eu aproveitei a empolgação do momento para convencê-la a experimentar os batons...
Como toda a conversa é feita de forma muito amorosa e bem humorada, em ambos os casos, ela topou e a gente tirou fotos, que foram compartilhadas no whatsapp.

Eu considero essa uma "manobra arriscada", rs. Mas sinto confiança em investir neste tipo de artifício porque quando era mais nova -antes do casamento Chernobil-, ela amava roupas, acessórios e maquiagem colorida, logo, sinto que esse pode ser um caminho de resgate e não de imposição.

Por várias vezes, eu já pensei que talvez não fosse dar em nada, mas acredite: a sementinha plantada um dia floresce.
A prova é exatamente a selfie da dona Socorro usando batom pink por livre e espontânea vontade num dia aleatório, sem que ninguém dissesse nada.

No fim, não é sobre o presente em si, mas sobre onde ele pode levar: os batons nunca foram um foco e eu não insisto nisso o tempo todo, mas eles funcionam como um post-it colado no espelho, lembrando que ela é maravilhosa e pode usar o que quiser.

2. Proporcione experiências compartilhadas

Eu também amo presentear com experiências, "coisas que não são coisas", mas que tem um grande potencial catalizador e que a gente pode guardar na memória com muito carinho.

Quando minha mãe comentou estar com vontade de conhecer o café e relatou vergonha, eu não minimizei e nem insisti para que ela fosse sozinha com o discurso vazio de "ninguém paga suas contas" porque eu sei que não é disso que se trata;

Em silêncio, internamente, comecei a estudar qual seria o lugar onde eu poderia levá-la, guiando a experiência, para que ela pudesse se sentir especial e inserida; a partir desses critérios, escolhi um café onde a gente poderia sentar no quintal, sabendo que isso já faria com que ela se sentisse mais a vontade, já que ela ama estar perto de verde, além de termos mais espaço entre as mesas, o que faria com que ela se sentisse mais livre.

Considero fundamental considerar e entender que esse tipo de experiência pode ser assustadora para quem sempre se sentiu excluído a vida toda e eu percebia isso o tempo todo quando minha mãe relatava ter vontade de comer comida de fast food mas sempre deixar pra lá por não se sentir bem em praça de alimentação...

Para proporcionar uma experiência marcante de forma positiva, a sensibilidade com esse tipo de detalhe importa -e muito!

No fim, minha mãe amou sua primeira vez num café...
Mais uma vez, ela disse que ali era o tipo de lugar que suas patroas frequentavam e eu senti que havia atingido mais um degrauzinho da minha meta.

Não por ser um "lugar de patroa", mas por ser mais uma coisa que eu consigo mostrar que ela tem direito de usufruir.

Uma dica para esse tipo de presente que considero fundamental: a gente precisa fazer o papel de "guia", introduzindo e apresentando essa nova experiência de forma natural e muito sutil, encontrando pontos  de identificação que façam com que a pessoa se sinta mais "em casa" (no Marilda, eu reparei que havia móveis e objetos antigos que ela amava e foi o argumento para uma volta tranquila lá dentro sem que ela se sentisse constrangida).

Quando compartilhei sobre isso, recebi mensagem de uma seguidora falando também sobre a baixa autoestima da mãe e na solução que os irmãos encontraram para "resolver": se juntaram para comprar um dia no spa para dar de presente para a mãe.
Acho a ideia linda, fofa, mas retornei com uma pergunta profocativa: se sua mãe nunca foi a um spa, será que ela vai se sentir a vontade ou o ambiente pode parecer hostil a ponto de ela não aproveitar a experiência?
E se ao invés de apenas dar um dia no spa (mandando ela sozinha), você for junto?

Se minha mãe se sente constrangida numa praça de alimentação, não adianta apenas eu dar o dinheiro para o lanche e falar: "vai lá"; em contrapartida, se eu estiver junto, lendo e explicando os cardápios, tudo fica mais simples pra ela. Sobre spa ou qualquer outro tipo de experiência, acho que vale o mesmo raciocínio - imaginar como a pessoa se sentiria e estar junto para proporcionar confiança a ponto de não parecer deslocada no ambiente.

3. Escuta (sempre) atenta

Chegamos no famigerado ponto onde dizemos que "não é sobre dinheiro" (porque, realmente, não é): para o Ângelo, eu decidi dar de presente de natal, algo feito por mim -do zero, inspirado nas nossas brincadeiras juntos e que, além de um brinquedo, fosse uma ferramenta para ajudá-lo na superação de medos.

Caramelo vem para encorajar o Ângelo, mas não para criar uma ilusão de um mundo sem medo, afinal, o medo representa também o instinto de proteção...
Nas nossas conversas, eu sempre compartilho com ele meus medos e Caramelo vem como um reforço sobre isso: ele também tem medo -de trovões e fogos de artifício, rs.

Toda a criação do Caramelo foi pautada exatamente nas várias vezes em que eu me dispus a ouvir, entender e acolher as causas do medo do Ângelo, ao invés de apenas dizer "não precisa ter medo";
Eu prefiro questionar um pouco mais para entender a raiz do "problema".

Caramelo também tem um ponto muito particular: por ter sido feito à mão e totalmente pensado no Ângelo, por mais que eu faça outros similares no futuro (e farei: teremos Caramelo no ano que vem pra todo mundo na B.Math), ninguém no mundo vai ter um igual e essa era também uma das intenções desse presente -lembrar como ele é único e especial pra mim.

Fazer com que uma pessoa se sinta assim não precisa ser complexo como foi a criação do Caramelo: alguns minutos de atenção, um bolinho de chuva ou um café quentinho podem ser suficientes para lembrar o outro do quanto ele importa para você.

4. É sobre pertencimento

O presente de natal da dona Socorro foi um vestido da mesma marca da camisa que ela tava usando no dia das selfies. Como era algo que eu queria que la usasse na nossa ceia de natal, o presente já chegou e, quando ela veio experimentar, substituiu a fala sobre "roupa de patroa" por algo sobre se imaginar usando ele numa viagem para a praia.

Será porque ela já naturalizou um pouco que ela pode ter roupas bonitas e não apenas as pessoas para quem ela prestou serviços domésticos?

Ou será porque algo tá mudando ali dentro a ponto de, aleatoriamente, ela decidir usar um batom rosa?

Eu acho que é uma junção de várias coisinhas, inclusive da terapia, que ela finalmente começou a fazer; mas eu confesso que me sinto muito feliz e leve de ver ela recebendo um presente assim de forma mais natural, aceitando que aquela etiqueta na peça não é um divisor social instransponível.

Esse é o ponto que a gente só consegue alcançar com o tempo, seguindo os passos anteriores.
Mas chega um momento em que a pessoa começa a naturalizar mais a ideia de ser cuidada, de receber atenção e começa a se perceber como a pessoa maravilhosamente incrível, forte e inspiradora que é.

A sensação de pertencimento acontece a partir da constância nesses pequenos "lembretes" e até por isso eu escolhi um vestido da mesma marca da camisa que ela amou... eu não quero que soe como algo pontual, pois o meu desejo de que ela se sinta maravilhosa é para todos os dias e não apenas uma vez ou outra.

Presentes podem ser apenas um objeto que você pagou parcelado no cartão e que vai se perder com o tempo, ou podem ser lembretes que ecoarão na memória, lembrando às pessoas o quão importantes elas são pra nós.

Esse post, em especial, foi feito com muito carinho como forma de tentar ajudar às pessoas que me acompanham e que tem algum histórico parecido na família: obrigado por compartilharem e lembrem, sempre que puderem, quão especiais são as pessoas que vieram abrindo caminho para que tivéssemos uma vida melhor do que eles tiveram.

No natal, no dia das mães, dos pais, nos aniversários e em qualquer dia: espalhe lembretes de que eles podem ser quem quiserem e podem ocupar qualquer lugar.

E aí, já decidiu quais serão os presentes de natal por aí esse ano?

Bjs do Math e boas festas!

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