Semanas atrás, ao acompanhar e interagir com um relato de trauma de infância que surgiu na minha timeline no twitter, juntei minha história com a história da outra pessoa que estava ali abrindo seu coração e me veio à tona o quanto o mundo poda severamente as pessoas sensíveis.

Quando criança, eu, que tinha uma soma absurda de complexos, a ponto de ser visto por alguns adultos como autista.
O que essas pessoas que me achavam excessivamente quieto não conseguiam decifrar ou sequer imaginavam é que eu sabia -de alguma forma que talvez eu nunca consiga explicar- que o mundo é cruel demais com pessoas sensíveis.

Não, eu não era absurdamente quieto e quase imóvel 100% do meu tempo.
Quando eu estava sozinho, minha mente ia distante... eu desenhava vestidos de noiva que na minha imaginação infantil eram como um sonho de princesa e, como não sabia desenhar rostos de mulheres, fazia cabeça de urso em cima deles.

E também aproveitava meus momentos sozinho para brincar escondido com as bonecas da minha irmã e isso me fazia um bem absurdo. Mergulhar a boneca na água e ver ela emergir e observar o movimento dos cabelos delas me deixava mais leve...

E eu tinha uma cúmplice: quando não tinha mais gente por perto, todos os lençóis saiam do armário e viravam decoração de casamento + vestido de noiva que eu improvisava com amarrações no corpo da minha irmã.

Enquanto eu sentia que minha sensibilidade precisava estar escondida pois, caso ela aflorasse, algo de não muito bom aconteceria, eu vi agressividade e violência sendo demonstradas livremente em casa, na rua, na TV, nas conversas de adulto...

E, mana, é preciso ter muita força para não se deixar levar pela onda de negatividade enquanto suas ideias se formam, afinam, vejam bem a distorção: coisas boas precisam ser escondidas, pois agressão e força bruta tem espaço livre para circular.
Faz algum sentido pra você?
Porque pra mim faz zero...

Essa conversa no twitter foi libertadora porque eu entendi, novamente, que não sou o único no mundo lutando para recuperar o tempo perdido e que várias outras pessoas precisaram guardar sua sensibilidade dentro de uma caixinha de segredos também.

Se, por um lado, a gente perdeu boa parte da vida deixando de canalizar nossa energia naquilo que temos de mais precioso, que é nossa essência, por outro lado, correr atrás disso hoje e descobrir que ainda dá tempo de recuperar o tempo perdido (e que não estamos sozinhos nessa jornada) pode ser libertador.

Vocês conseguem imaginar quão cruel é julgar e reprimir uma criança, independente da idade, do gênero ou de qualquer outra característica por suas descobertas naturais?
Repreender uma criança por gostar de determinados tipos de brinquedos, por preferir tarefas e atividades que, em tese (tese ultrapassadíssima, por sinal) seriam coisas destinadas a outro gênero e julgamentos similares ferem de uma forma quase irrecuperável nossa formação enquanto pessoas porque a gente cresce acreditando que é ruim seguir um caminho que nos seria natural -no meu caso, o da sensibilidade artística-, porque, sim, isso vai se refletir ao longo da nossa vida e da nossa existência.

Hoje, eu consigo entender que todas as minhas experiências e vivências me transformaram em quem eu sou -inclusive as negativas- e consigo enxergar que o Matheus de 4 ou 5 anos teria orgulho do adulto às vésperas dos 30 que eu me tornei, mas não muda o fato de que eu queria muito ter uma máquina do tempo para abraçar aquela criança em alguns desses momentos solitários e dizer que, sim, ela poderia ser quem ela quisesse no mundo.

Não temos máquina do tempo, mas temos a possibilidade de dizer a uma criança hoje, que ela pode ser quem e o que ela quiser.
Temos o poder de estimular uma criança a provar o máximo de coisas saudáveis possível para que ela decida qual o caminho a faz sentir melhor.
Temos a chance de escutar sem julgamento um adolescente e dizer que vai ficar tudo bem e que tá ok achar essa fase complicada demais, afinal, todo mundo passa por esse momento.
E temos a autonomia de dizer para nós mesmos que ninguém pode mais nos tirar a liberdade de gostar de rosa, azul, amarelo ou preto (ou tudo junto ao mesmo tempo) e que nada nem ninguém pode julgar nossas escolhas nos colocando em uma caixinha de rótulos impostos pelas regras distorcidas de uma sociedade que ainda valoriza e liberta força bruta e violência e considera sensibilidade como fraqueza.

Não, eu não sou fraco.
Eu sou muito forte por encarar essa visão doente e distorcida do mundo desde que me entendo por gente.

Nós somos fortes porque estamos aqui, junt@s, encarando essa onda negativa para transformar o mundo num lugar melhor!

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