De um jeitinho sutil e discreto, a crise dos 30 tem se feito presente há algum tempo na minha vida trazendo muitos questionamentos sobre os mais variados tipos de coisas. Mas eu aprendi que crises não são ruins: elas servem pra dar um reboot, sair do automático e redefinir a rota.

Entre tantos diálogos no estilo papo-cabeça que tenho tido com amigos recentemente, ficou claro pra mim que uma das minhas missões é dialogar com minha criança interior para, com isso, estimular as pessoas a resgatarem esta mesma relação em suas vidas também, afinal, a gente tem vivido um momento de completa loucura, imersos em tanta novidade, na velocidade da evolução das coisas e no acúmulo de ansiedade que de alguma forma tem se "naturalizado" na nossa vida e talvez a solução esteja nesse resgate, trazendo à tona o que realmente importa.

E hoje minha criança interior tem um recado para o mundo sobre uma época em que eu só sabia que gostava de brincar (com qualquer tipo de brinquedo, mas preferencialmente com bonecas de cabelo comprido, imaginando ser uma sereia emergindo de um rio lindo que na verdade era o tanque de lavar roupas na varanda da casa da minha mãe), quando minha única responsabilidade era o dever de casa, mas essa leveza dividia espaço na minha cabeça com algumas confusões e complexos, que eram até suportáveis, mas que se potencializaram graças a algumas situações em que eu fui torturado psicologicamente por querer dançar a coreografia das Chiquititas ou por, em algum dos momentos em que eu estava apenas querendo brincar e ser criança, fui interrompido e abruptamente chamado para uma conversa densa, cheia de ameaças emocionais de uma pessoa adulta que, ao invés de me proteger e me deixar ser quem eu era, tentou me aprisionar em uma cela de medos "do divino", de Deus -sendo que hoje eu nitidamente consigo perceber que a única coisa da qual eu deveria e ainda devo ter "medo" é do ser "humano" capaz de tais atrocidades.

O que minha criança interior tem a dizer é: não seja esta pessoa.
Não puna crianças por apenas serem crianças.
Não proíba meninas de brincarem com carrinhos, não as obrigue a usar roupa delicada nem torture psicologicamente meninos que gostam de brincar com bonecas -achando que isso vai mudar algo que você suspeita: o fato de que aquele indivíduo pode vir a se tornar um ser homossexual (ou bissexual, ou transexual etc...).

Minha criança interior gostaria de dizer também que uma criança apenas quer poder ser criança: ela sequer sabe o que é orientação de gênero e a única coisa que ela sabe é que pessoas são pessoas e, em tese, a gente deve ensinar à crianças que pessoas merecem respeito e não ódio.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu pegaria na mão daquela criança viada tão confusa (e triste, muitas das vezes) após cada momento que ela ouviu pelos cantos alguém dizendo "é bicha, sim" ou "você não tá vendo que ele é bicha?", olharia no fundo dos olhos do pequeno Matheus e diria que ele não precisaria se privar do mundo, não precisaria se isolar tanto e que ele poderia viver tranquilamente a infância dele, sem se preocupar com aquelas frases que ele nem sabia direito o que significavam, pois um dia tudo daria certo e, quem diria, ele até falaria sobre isso para um bom punhado de pessoas que fariam uma corrente linda de amor para proteger outras crianças (viadas ou não, afinal, isso não importa).

O que eu tô tentando dizer é que estamos na reta final de mais um mês do orgulho LGBTQI+ e meu recado é para todos nós protegermos e respeitarmos nossas crianças contra mais esse tipo de violência: a psicológica.

No mês passado eu falei aqui sobre abuso sexual infantil e me senti absurdamente feliz por receber o apoio de vocês e por saber que tanta gente conseguiu entender a mensagem que eu estava tentando passar, por acreditar na importância do assunto.

Hoje, quero dizer que nós, humanos -hétero, homo, bi, trans, pan ou seja lá qual for a orientação sexual- precisamos aprender muita coisa, mas precisamos também entender que muitos dos traumas de adultos LGBTQI+ que entram em depressão, tem dificuldades em se relacionar e no pior dos casos até mesmo se suicidam começam ainda na infância, a partir de situações de repressões e traumas.

Eu poderia trazer vários outros discursos, mas tem muita gente falando sobre muita coisa e a camisa que eu decidi vestir é a da proteção da saúde mental de crianças que precisam enfrentar o que eu já enfrentei no passado: uma carga imensa de culpabilização por ser algo que não estava sobre o meu domínio. Eu apenas ERA...

Felizmente, eu sei que maior parte das pessoas que me acompanham tem uma mente muito aberta, e eu queria exatamente aproveitar para pedir que você use seu discernimento para ajudar outras mães,, pais, amig@s, famílias que se encontram em um momento delicado tentando entender questões relacionadas à sexualidade de alguém próximo. Quer seja criança, adulto ou adolescente, a gente ainda tá num momento em que tudo é novidade pra muita gente e a gente tem a opção de se fazer apoio ou deixar que estas pessoas busquem apoio em outras fontes, que podem estar carregadas de preconceito e ódio.

Então, vamos fazer mais uma corrente de amor e tentar mostrar para o mundo que ninguém precisa ter medo das cores do arco-íris, assim, a gente consegue criar um mundo onde outras crianças não precisem passar por traumas que tanta gente já passou.

Muito obrigado por todo o amor e respeito que recebo de vocês sempre.
Pode não parecer, mas tudo conta e tudo ajuda este ser humano aqui a superar, dia após dia, os traumas do passado.

Amo vocês.

Bjs do Math e até a próxima!



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